Minhas viagens de ônibus, apesar de sacolejantes e cansativas, rendem pelo menos momentos de reflexão. Em uma delas, depois de me acomodar ao fundo do veículo e visualizá-lo ficando quase lotado, percebi que havia apenas um lugar vago. Ao lado estava ela. Loira, com um vestido azul piscina, cabelos presos, rosto já marcado pela idade, corpo demonstrando alimentação em excesso. Me chamou a atenção seu semblante calmo, olhando através da janela como se buscasse solução aos seus problemas nas árvores e nos campos do interior por onde passávamos. Mal imaginava eu que aquele olhar escondia o preconceito.
Ônibus parado para a subida de mais um passageiro que dividiria conosco aquele ar já saturado. Era um homem alto, pele negra, carregando uma pequena mochila. Ao solicitar licença para aquela senhora de vestido azul, eis a minha surpresa. A dona levantou-se e deixou o moço sentar no mesmo momento em que se dirigiu à outra poltrona mais a frente que acabara de ficar disponível. Esse é o retrato da discriminação.
Eu senti vergonha alheia naquele momento. Senti vergonha de ser branca. Vergonha até de ser humana e ter que fazer parte dessa corja ridícula que humilha o próximo no mesmo momento em que venera aquele que supostamente pregava o amor. Acho lamentável esta distinção negativa pelo diferente. Digo isso, lembrando que do negro para o branco acontece o mesmo. E do brasileiro com o português. E do paulista com o gaúcho. E do homem com a mulher. E do crente com o ateu. E do hetero com o homossexual. E por aí vai.
As pessoas estão mais preocupadas em criticar a “traição” do Ronaldinho do que respeitar o próximo. Preocupam-se mais com a piada do Rafinha Bastos do que com o cara ao lado mendigando por comida. A maioria ainda prefere fazer campanhas para que Lula se trate no SUS do que proliferar a simples ideia de não jogar lixo no chão. Eis a humanidade, que de humano nada tem.
É incontestável que os seres humanos são diferentes uns dos outros, mas a intolerância, a separação e o ódio não podem fazer parte do repertório diário de cada um. Respeitar as diferenças e opiniões contrárias é uma busca que não podemos abandonar.

Camila, o fato de voce se indignar com isso é que faz com que valha a pena continuar a lutar. Demonstrações públicas da indignação como esta demonstram que não estamos sozinhos na tentativa de construir um mundo sem discriminação, sem preconceito. Que me chamem de Louco, utópico e o que quiserem, mas não consigo, assim como vc, assistir a demonstrações de preconceito , como esta que vc relatou, e ficar tranquilo, e virar o rosto pra fingir que não vi…
O primeiro passo pra mudar é indignar-se…
Parabéns, o primeiro passo já foi dado…
Abraço
Nossa Camila, bela colocação. Infelizmente acho quer o preconceito jamais deixará de existir, seja ele em qualquer âmbito.
e nós a minoria, que som,os contra ele, ficamos envergonhados, eu imagino a cena, e imagino tbm como aquele sr. deve ter se sentido, e pior que não há nenhuma punição para os preconceituosos e muito muito menos nenhuma conscientização dessas pessoas, que agem deste modo, lastimável.
Eu mesma alguns anos atrás qdo terminei o ensino médio no turno da manhã, procurei meu primeiro emprego, e uma coisa que marcou a minha vida, talvez para sempre, foi o fato que, soube na época que uma joalheria da região tinha uma vaga em aberto, lembro como se fosse hoje que me inscrevi para uma entrevista, aliás entrevista esta feita pela própria proprietária.
tdo bem nunca tinha trabalhado em lugar nenhum, não tinha nenhuma experiência no ramo. e sou portadora de uma pequena deficiência física, um encurtamento no tendão de Aquiles da perna esquerda, o que faz com que eu ande mancando um pouco. chegando lá, eu estava bem apresentável e disposta a dar o melhor de mim, porque eu precisava arrumar um emprego até mesmo para eliminar o complexo de inferioridade que eu sentia, e levantar minha auto-estima.
eis que qdo fui chamada, a proprietária, me olhou da cabeça aos pés, e me disse bem assim: ” Desculpe mas vc não tem capacidade de vestir a camisa da minha empresa”. Guria, acabou com o meu dia, me senti um lixo, pq se quer ela meu deu oportunidade de que eu me apresentasse e fizesse minhas colocações. Eu senti na pele que o preconceito, é horrível e doloroso demais.
graças a Deus, consegui outro emprego, passei no vestibular do tão almejado e desejado Jornalismo, e hoje eu sempre dou o melhor de mim em qualquer função a mim delegada, para demonstrar para a sociedade que, o preconceito deve ser banido. Que não importa cor, credo, todos nós temos defeitos que podem ser superados com qualidades. Que somos pessoas capazes, que todos somos iguais, sere humanos, e que a única coisa que diferencia-nos uns dos outros seja o nível social, e o endereço.
bjs e parabéns pelo post.
Lendo esse teu texto fiquei feliz em saber que a gente como pais, conseguiu passar certos valores pra voces. E, indignada como pode que as pessoas são assim, sempre tem alguém que se acha superior a outro. Beijão
Usando figuras de linguagem, mostrando a indignação dos puros, coordenando início, meio e fim num texto envolvente, sinto a evolução de teus escritos, parabéns, guria.