19
jun
13

Tarde de chuva

[Por Paulo R. Diesel]

 

Na janela

embaçada

desenho o teu

perfil.

 

O rosto se desmancha e

ficam as marcas

do tempo que

castiga.

 

Chuva,

vento.

A janela

bate,

o vidro

quebra.

 

No chão

um caco do sorriso

que restou…

 

08
jun
13

Que seja especial…

Dia 15 é meu aniversário. Dia 15 completo 25 anos. Como disse um colega meu, já se foi um quarto da minha vida… Nostalgicamente ou não.. trágicamente ou não.. irônicamente ou não… um quarto muito bem vivido.

Nunca fui de ficar triste em datas como essa. Pelo contrário. Sempre fiz questão de fazer com que as pessoas próximas saibam que meu dia está chegando. Gosto dos abraços, de ser lembrada, de receber presentes. Gosto dos gestos verdadeiros. E se o abraço vem, só pra manter as aparências, tudo bem. Gosto  também.

Quem não gosta de aniversário deve ter um bom motivo. Ou um mal. Lembranças ruins, escassez, ou o simples fato de olhar para trás e perceber que mais um ano passou e nada de útil se fez. Até agora, esse não é o meu caso.

Meus aniversários sempre foram comemorados em grande estilo. Mesmo de maneira singela, meus pais sempre fizeram questão de comemorar. Uma comida especial no almoço, um presente – mesmo que fosse uma peça de roupa que estava precisando – e uma festinha para os colegas e parentes próximos. E era tudo meticulosamente planejado por minha mãe. A decoração, os doces, os salgados, velas, convites, a roupa que eu usaria… Eu esperava ansiosamente o mês de junho.

E é assim até hoje. Busco sentir a sensação de me sentir importante naquele dia. Quero que o dia 15 seja especial. Que os que amo estejam comigo, pelo menos em pensamento. Que se lembrem, mesmo que seja dias depois. Que seja especial, mesmo sabendo que o que vale mesmo é os 364 dias de desaniversário (né, pai?).

16
maio
13

Gays e direitos (ou a falta deles)

casamento-gay2Tudo que foge da zona de conforto se torna polêmica. Aborto, ateísmos, homossexualidade… Mesmo que já tenhamos evoluído muito, esses temas ainda são tabus na nossa sociedade hipocritamente obsoleta. Não acho que todas as pessoas tenham que achar agradável e concordar em número e grau com todas as crenças (ou falta delas), com todas as atitudes alheias, com todas as opções e com todos os sentimentos. O que se espera, no mínimo, quando se fala de um conjunto de seres vivos tão diferentes entre si, é que se respeite o direito do outro de ir e vir, de ser feliz, de ser livre, de não ter que se esconder.

Não é porque você tem amigos gays, defende os homossexuais quando ouve piadinhas infames e acredita que eles têm todo o direito, sim, de andar de mãos dadas na rua como qualquer hétero, que você se torna um. Já ouvi coisas do tipo: “uma hora a Camila vai aparecer com uma namorada…”, só porque não admito que tirem sarro de uma coisa que deveria ser tratada com naturalidade. Nesses momentos o preconceito atravessa os ofendidos e atinge a mim, que peço que simplesmente guardem pensamentos incoerentes para si. Se é contra casamento gay, que não se case com alguém do mesmo sexo. Mas não se pode admitir que, por esse motivo, não permita o direito a quem o deseja.

O preconceito é tão enraizado que muitos nem se dão conta. Um exemplo é a referência de “pessoa normal” aos heterossexuais. Você já deve ter dito ou ouvido algo do tipo: “Ele é gay? Achei que fosse homem!” Como assim, meu povo? O cara não vai deixar de ser homem porque tem uma orientação sexual diferente da maioria. O sexo dele é o mesmo e continua sendo um cidadão, digno de respeito. E o pior é que o mesmo cara que diz ter nojo é aquele que compra filmes pornôs ou revistas com garotas se tocando. Aí tudo bem? Não faz sentido.

Um amigo meu um dia me disse que sua maior frustração é ser gay. Ele disse que queria poder escolher e não passar por todo o sofrimento. E ainda tem gente que trata o homossexualismo como escolha. Me diga, hétero tão superior: você escolheria não poder mandar mensagens de carinho em redes sociais ao namorado para não ser motivo de chacota? Você escolheria não poder andar de mão dadas na rua com quem ama, para não ser olhado com desgosto? Você escolheria não poder trocar carinho em público para não correr o risco de ser linchado? Você escolheria não poder se quer adotar um filho porque a bela constituição não permite?

Outra coisa que já ouvi é que os gays protestam contra o tal do Feliciano e não vão às ruas por causas maiores, como os políticos corruptos. Existe causa maior do que exigir o repeito da sociedade? E aí eu digo mais. Quem critica o movimento é quem não se informa, quem não tira a bunda da cadeira, quem não acompanha nem os vereadores da própria cidade… Quem critica não tem a mesma cara e coragem dos que trata com desprezo. Tome como exemplo. Vá para a rua então protestar contra o que acredita e de fato tentar mudar alguma coisa. Críticas vazias, baseadas em conceitos furados, não agregam em nada.

Me senti muito feliz nessa semana quando li que a partir de hoje o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) permite o casamento civil entre homossexuais no Brasil. É um enorme avanço e uma conquista para quem tanto luta pela igualdade de direitos. Conforme o Terra, a resolução apenas obriga todos os cartórios a celebrarem o casamento civil a pessoas do mesmo sexo da mesma forma como é celebrado a casais heterossexuais. No entanto, “ela não legaliza o casamento gay no País, já que, para isso, o assunto deveria passar por votação como lei no Parlamento. Para o deputado Jean Wyllys, ‘o Congresso Nacional não legisla’. ‘E não vai fazer isso (votar uma emenda constitucional que legalize o casamento homossexual) porque, embora os fundamentalistas religiosos não sejam maioria, os conservadores são quase maioria’, disse ele.”

Tenho argumentos para escrever o dobro dessas linhas, inclusive no âmbito religioso. Mas não quero, com esse texto, mudar a opinião de ninguém. Proponho apenas a reflexão, a empatia, o entendimento… Ninguém é menos que ninguém por causa do que sente. O amor é tão lindo. Seja ele entre um homem e uma mulher. Seja ele entre dois homens ou entre duas mulheres.

29
abr
13

O velho suéter

A peça que mais gosto no meu guarda-roupa tem quase 40 anos. É um suéter preto com detalhes em laranja e branco. Eu usava em baixo de outros casacos maiores, achava ele velho. Com o passar do tempo percebi que ele poderia ser promovido. E hoje ele dá um ar vintage para o look.

Coisas antigas me atraem. Gosto da história que cada antiguidade carrega. A grande prova é meu fusca de 1968. E o velho suéter de 40 anos. A peça pertencia à minha mãe. Desde muito nova ela se virava e aquela roupa foi mais um dos itens que ela adquiriu com o suor do seu trabalho.

Tenho um apego muito grande pelo suéter. É mais do que um simples blusão. É carinho. Talvez porque toda vez que o tiro de dentro do armário me vem a mente uma foto em que minha mãe o vestia. Ela sentada no colo do meu pai, com as unhas pintadas de branco. É possível ver o amor naquela imagem. Eu consigo sentir a atmosfera daquele lugar frio, aquecido pelo sentimento que havia entre os dois jovens.

Quantos abraços o suéter já presenciou? De quantos momentos bons ele participou? Não interessa se foi um mero coadjuvante. Não interessa se naqueles momentos ele era o que menos importava. Não interessa até mesmo se nele pingaram lágrimas de dor – porque nem só de alegrias vive o homem. O que vale, pra mim, é que ele carrega histórias. Histórias das duas pessoas mais importantes na minha vida!

2013-04-29 11.02.58-1

08
abr
13

Carreiras de cancha reta

O texto a seguir do meu pai, Paulo Ricardo Diesel.

Assim que chegamos sentei-me de baixo do alambrado e fiquei olhando para as patas dos cavalos que lá longe vinham correndo. Meu avô, de pé ao lado dos seus amigos, berrava na torcida do pangaré no qual apostara.

Era uma corrida de cancha reta, muito comum naquela época. Os cavalos corriam, os homens gritavam e a gurizada que acompanhava seus pais, avós, irmãos, sentados na terra vermelha ficava empoeirada pelo pó que era levantado. Domingo a tarde diferente, contagiante, empolgante, envolvente.

Não tinha Faustão, não tinha futebol às 4 da tarde, não tinha Fantástico ou Silvio Santos ou Gugu.

Eram domingos. E que domingos!!! Mas como todo domingo tinha que ter uma confusão, pois como os pais, após o almoço, dormiam, meu avô convidou-me para a “carreira” e não conseguimos avisá-los o que fez com que revirassem toda vizinhança a minha procura, a procura do Paulinho que com a experiência dos seus 4 anos, sumira e ninguém vira, ninguém notara.

À noitinha, quando o sol já se punha no horizonte e os últimos raios ainda apontavam ao infinito, chegamos felizes, sorridentes, empoeirados e a “vara de marmelo” esperava-me sobre uma cadeira da cozinha e foi habilmente usada pelo pai para mais uma lição que aprendi naquele dia. Meu avô nem pode defender-me, mas também não era necessário pois depois daquele dia todas as saídas eram comunicadas.

Nosso cérebro é incrível, sei lá quantos “giga” tem esta memória, mas a história relatada veio-me a mente ontem quando passei pelo pacato bairro “Boa Vista”, em Teutônia/RS onde nos 60/70 aconteciam fatos que contribuíram para o crescimento e desenvolvimento meu e de toda gurizada.

20
mar
13

A Vaca Rebeca e o assobio

Era 7h30 e já era hora de o pedreiro colocar a mão na massa. Nem precisei de despertador naquela manhã. O que me acordou não foi o barulho da betoneira, nem da furadeira, muito menos do picão. Um assobio singelo, aprimorado e com muitos detalhes ultrapassava as paredes. Acordei e por um instante voltei aos meus cinco anos. Aquele som me transportou para uma época tão simples, tão boa e completamente inocente. Lembro que adorava observar a alquimia do cimento. Ouvindo seu assobio, assistia atentamente à mistura do cal, da água e da areia. Como era possível que aquela consistência se tornasse no principal ingrediente para se erguer uma parede? Eu ficava lá. Ao lado dele.

A maioria das pessoas não tem noção da influência que exerce sobre a vida de outras. No caso que divido com vocês, o pedreiro, que realizou inúmeras obras à pedidos da minha mãe, não sabe nem de longe que ele fez parte da minha infância. Ele nem imagina que o som do seu assobio me faz bem. Não sabe. E talvez nunca saiba.

Sem citar a influência direta dos familiares, há outras pessoas que fizeram parte da minha vida e que guardo com muito carinho. Entre elas, a primeira professora. Sempre que vejo a tia Liza nas ruas ou em redes sociais me lembro da sua camiseta com dois elefantes. Lembro como se fosse ontem da festinha de São João, na sala de aula. Mas o que mais me marcou foi um presente que ela me deu: meu primeiro livro. “A Vaca Rebeca” está longe de ser um clássico literário, mas guardo na memória cada frase da obra de Sônia Junqueira. Sério. Eu sei declamar o livro do início ao fim. E que lembrança boa…

E por aí vai. Talvez eu leve comigo para o túmulo a importância que eles, e outros mais, têm na minha história. Talvez seja melhor guardar pra mim, ou dividir com meus leitores, esse gostinho da lembrança.

01
mar
13

Para onde?

[Por Paulo Diesel]

Para onde vão os pássaros à noite?

Voam pro norte? Voam pro sul? Voam, voam, voam.

Ou será que dormem em seus lençóis de seda branca esticados nas suas camas, no quarto das casas de palha, metodicamente construidas sobre os galhos da pitangueira?

Não ouço os sabiás, os ben-te-vis, os quero-queros, as caturritas, os tucanos…

Para onde vão os pássaros a noite?

De ninho em ninho na busca do repertório para a manhã?

 

Para onde vai a noite?

Para onde vão os pássaros?

Para onde vão as pessoas

que observam os pássaros

que se vão?

Para onde vão?

Para onde?

Pára!

Escuridão.




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